terça-feira, 16 de novembro de 2010

Trabalhando com projetos


            O ensino/aprendizado através de projetos parece ser uma boa alternativa ao ensino baseado em conteúdos conceituais num momento em que a escola é cada vez mais necessária – a crescente mecanização concentra o mercado de trabalho progressivamente nas atividades ligadas à economia do conhecimento – e, por outro lado, é cada vez mais sitiada - os alunos criados na sociedade do imperativo de gozo recusam a autoridade do professor e tornam os ambientes de sala de aula inóspitos - tudo isso agravado na escola pública devido ao fato de que vários alunos têm vivências cotidianas permeadas pela violência do tráfico de drogas. Além disso, ainda é importante notar o fato de que com a proliferação dos meios de comunicação de massa os alunos recebem conhecimentos parciais e dispersos, o que faz com que aspectos básicos que estejam sendo ensinados para muitos sejam já conhecidos de alguns.
            Nesse contexto apreender a síntese de uma composição química ou a utilização de uma fórmula de física parece distante da vida cotidiana e o ensino/aprendizado através de projetos – traçar um objetivo, buscar de forma interdisciplinar dar conta dele através de pesquisa e atividades que possibilitem o trabalho em rede e a troca de conhecimentos imediata de aluno para aluno – parece ser uma ótima alternativa. Não se trata também de defender o ensino/aprendizado através de projetos como uma panacéia, apenas não podem ser deixadas de lado suas potencialidades – o uso dos conhecimentos e a simulação de atividades reais.
            O texto de Dácio G. Moura e Eduardo F. Barbosa não fica restrito ao ensino/aprendizado através de projetos, ele trata de projetos para os vários níveis educacionais – desde a gestão da escola até a sala de aula. Sendo assim um projeto educacional todo “projeto com finalidade educativa, independente de ser de uma escola ou fazer parte do sistema educacional forma”.
            Projetos são opostos a atividades rotineiras, “uma atividade rotineira pode ser automatizada a ponto de poder ser executada por uma máquina; um projeto, entretanto, por ser uma atividade criadora” depende de pessoas que imaginem, criem, executem, controlem, critiquem, imaginem novamente, modifiquem, etc.
            Existem projetos de vários tipos: intervenção, pesquisa, desenvolvimento, ensino, trabalho.  Para a discussão que é feita nesta disciplina de Didática o projeto de ensino – projeto elaborado para melhor o processo ensino/aprendizado em uma ou mais disciplinas, e o projeto de trabalho – projeto realizado por alunos sob supervisão de professor(es) com objetivo de aprendizagem de conceitos e desenvolvimento de competências – são os mais importantes. Os autores ainda trazem a tona o fato de que a cultura de projetos na educação é incipiente e isso se deve a uma resistência das pessoas com relação a inovações, além de mostrarem a variabilidade do tamanho, complexidade e incerteza dos projetos, variáveis essas que se cruzam em matrizes em que todas elas têm relação com as outras. Isto quer dizer que podem existir projetos simples e grandes, assim como complexos e de baixa incerteza. Também é importante notar que um programa é um conjunto de projetos e que um subprojeto é uma parte de um projeto de grande porte.
            Os projetos nas várias esferas da educação podem propiciar às pessoas (e aos alunos) entediadas com suas rotinas um trabalho criativo e estimulante, entretanto, para isso além da cultura de projetos que os autores do texto defendem também é necessária a formação e remuneração satisfatórias dos profissionais da educação, bem como a criação de infra-estrutura para que esses processos dinâmicos tenham lugar. Ao se comparar por exemplo o Colégio de Aplicação da UFSC com uma escola pública estadual do entorno pode ser percebido já nas paredes quão dos dois trabalha com projetos, nas notas do ENEM ou na aprovação no Vestibular isso pode ser notado outra vez, assim como no orçamento, de modo que muito mais do que uma cultura de projetos precisa ser criada para que a educação possa sair do marasmo em que se encontra.

KENSKI, Vani Moreira. Repensando a avaliação da aprendizagem

            A avaliação é um dos momentos capitais dos processos de ensino porque tem consequências diretas na vida do estudante, seja em sistemas de organização binária em que o aluno pode ser aprovado ou reprovado, seja em sistemas contínuos como o IAA da UFSC em que a soma de várias avaliações é utilizada muitas vezes como único determinante na distribuição de bolsas de estudo.
            A pesquisadora Vani Moreira Kenski pondera que o ato de avaliar transcende a sala de aula, que na verdade as pessoas avaliam cotidianamente em cada tomada de decisão. Seja ela uma escolha sem maiores conseqüências como a do sabor de um sorvete ou uma escolha que implica muito como a escolha da profissão. Em todas essas escolhas, por mais racionais que as pessoas tentem ser, estão sempre presentes também suas paixões, sentimentos e ideologias.  Quando esses fatores subjetivos implicam em avaliações e tomadas de decisões de cada pessoa para com si tudo está bem, se não estiver cada pessoa pode procurar um analista, mas quando esses julgamentos têm implicações na vida de outras pessoas tudo fica mais complicado. O professor tem uma tarefa difícil, pois ele “é o profissional que tem como competências a obrigação de emitir juízos sobre desempenho de muitos “outros”: os seus alunos”.
            Para que o processo de avaliação tenha conseqüências positivas é importante que o professor perceba o que foi colocado acima – a avaliação não acontece somente no final de uma etapa, ela acontece durante todo a interação didática. Ao somar essa percepção ao foco no processo de ensino que o é aprendizado do aluno o professor poderá tornar a avaliação uma prática e deixar as avaliações traumáticas para trás.
            A avaliação não pode ser somente dos conteúdos estudados, tem que levar em conta a formação do cidadão. Assim nas sociedades contemporâneas – caracterizadas pela rápida circulação de informação - o papel do professor é: “Estabelecer uma cartografia de saberes, valores, pensamentos, e atitudes a partir da qual possam instigar criticamente seus conhecimentos e os de seus alunos”.
            Os alunos devem ser avaliados pelos seus pares, e também por si mesmos. Além dessas mudanças na avaliação do desempenho dos alunos, outras mudanças devem ocorrer: o professor deve ser avaliado pelos alunos, pelos outros professores e também através de auto-avaliação. É fundamental que os parâmetros dessas avaliações sejam construídos coletivamente e que eles estejam claros a todos – um dos maiores problemas acontece quando as pessoas não sabem porque critérios estão sendo avaliadas. O processo de avaliação deve ser compreendido, por fim, como um processo que lida com pessoas e deve estar em constante avaliação.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

ZABALA, Antoni. A prática educativa: como ensinar

            No capítulo: “A prática educativa: unidades de análise” do livro: “A prática educativa: como ensinar”, publicado em 1998, Antoni Zabala expõe sua reflexão sobre educação com o objetivo de melhor a prática educativa. Ele começa seu texto problematizando a avaliação dentro das ciências humanas que é complexa devido ao fato de que a própria escolha dos itens em avaliação é uma escolha avaliativa, em contraposição às ciências naturais que tem modelos empíricos de avaliação – como a cura do paciente, ou a descrição satisfatória de um fenômeno físico. Sem resolver esse impasse, mas também sem esquecê-lo, Zabala busca uma “atuação profissional baseada no pensamento prático, mas com capacidade reflexiva.”
            A partir da constatação de que as variáveis que configuram as práticas educativas são múltiplas e complexas, o autor centra os esforços na unidade da atividade/tarefa sem esquecer das seqüências didáticas que são compostas pelo encadeamentos das atividades/tarefas e integram-se em planejamento, aplicação e avaliação. Ele opta, depois de discutir as posições de outros autores, pela avaliação do seguintes tópicos: seqüências de atividade de ensino/aprendizagem, papel dos professores e alunos, organização social da aula, utilização dos espaços e do tempo, organização dos conteúdos, matérias curriculares e o sentido e o papel da avaliação.
            Zabala contextualiza ainda a correlação entre as influências das fontes sociológicas, epistemológicas, psicológicas e didáticas na construção dos modelos teóricos de ensino, e o condicionamento desses modelos pelo contexto do que resulta a prática educativa. No decorrer do livro ele pretende discutir diversas variáveis metodológicas de modo a propiciar aos professores condições de vencer a inércia na educação.

A nova lógica do ensino na sociedade da informação

            No capítulo “A nova lógica do ensino na sociedade da informação”, do livro “Tecnologia e ensino presencial e a distância”, publicado em 2003 pela Papirus, Vani Kenski faz uma reflexão sobre educação a partir das mudanças sociais ocasionadas por aquilo que ela chama de sociedade da informação. A sociedade da educação, dentro do ponto de vista da autora, altera toda a dinâmica do processo educativo, redefine o papel do professor e exige um novo tempo e um novo espaço da educação.
            Na metade do texto a autora muda um pouco seu ponto de vista e a sociedade da informação já não influencia e demanda das pessoas e aquilo que lhe interessa tanto assim, pois é necessária também “uma profunda, significativa e absoluta “mudança institucional” nos sistemas e esferas educacionais”.
            Nesta mudança, a gestão, o controle, a administração serão reestruturados e as instituições de ensino serão pólos de ação e produção de conhecimento para todos os cidadãos. A educação deve ser oferecida em todos os lugares, a formação deve ser permanente, as identidades fortalecidas, planos de interconexões educacionais devem ser estabelecidos e um projeto de ensino não-excludente deve ser construído de forma participativa e coletiva.
            Assim o humanismo conjugado com a máquina vão criar condições para o homem de “formação integral como ser humano, em todas as suas dimensões”.  Um novo cidadão, um novo mundo.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

DELORS, Jaques. Os quatro pilares da educação

O texto baseia-se na concepção de que a educação deve organizar-se em torno de quatro aprendizagens fundamentais que, tornar-se-ão os pilares do conhecimento de todo indivíduo. 
Os quatro pilares são:

  • Aprender a conhecer: domínio dos próprios instrumentos do conhecimento.
Crítica à especialização como objetivo único. O indivíduo deve ser possuidor de uma vasta cultura geral a fim de obter uma abertura para outras linguagens e outros conhecimentos, realizando assim, um ato de comunicação.
Interdisciplinaridade. Aprender a aprender.
Processo de aprendizagem do conhecimento nunca está acabado e pode enriquecer-se com qualquer experiência. A escola deve sempre incentivar a busca pelo conhecimento.

  • Aprender a fazer: indissociável do aprender a conhecer.
Esta aprendizagem está diretamente relacionada à formação profissional. O aprender a fazer também requer aprender a analisar o mundo onde se vive e identificar as possibilidades de trabalho existentes nele, para assim desenvolver-se de maneira coerente com o seu entorno. O “saber fazer” só se configura completo se tomamos o lugar e o tempo de onde o homem se enuncia.

  • Aprender a viver juntos, aprender a viver com os outros
Descobrir o outro como seu constituidor e não destruidor. Saber lidar com a alteridade é não apenas estar no mesmo ambiente que o outro e reconhecê-lo, mas sim a convivência em projetos comuns, destacando-se assim, a interdependência entre todos os seres humanos.

  • Aprender a ser
Reconhecer-se responsável e justo para com o meio onde vive. A educação tem o papel de conferir a todos os seres humanos a liberdade de pensamento, discernimento, sentimentos e imaginação de que necessitam para desenvolver seus talentos e permanecerem, tanto quanto possível, donos dos seus próprios destinos. Desenvolvimento da personalidade para agir com maior capacidade de autonomia.

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Acreditamos que a educação tenha um papel de extrema importância na formação ética, pessoal e profissional dos indivíduos. A tarefa é árdua e necessita de um empenho quase sobre-humano para que se consiga atingir os objetivos almejados pelas quatro aprendizagens antes mencionadas. O que deve ser entendido é que deve existir um trabalho em equipe (gestores, professores, orientadores, famílias, estudantes) para que se possa por em prática o que se teoriza na literatura em questão. Este é um trabalho extremamente dependente de todos os envolvidos para que se tenha êxito.  

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Atitudes docentes

Após a leitura em sala do texto "Adeus Professor, Adeus Professora? Novas exigências educacionais e profissão docente" de José Carlos Libâneo, cada grupo ficou responsável por sintetizar em uma frase cada uma das 10 atitudes docentes destacadas pelo autor como fundamentais para um posicionamento diante das realidades do mundo contemporâneo.

1. Mediar a aprendizagem para que o aluno assimile os conteúdos de modo consciente e ativo;
2. Articular os saberes das diferentes áreas, promovendo uma prática didática interdisciplinar;
3. Aprender a aprender e posteriormente, ensinar a aprender e ensinar a pensar;
4. Estimular o pensamento crítico e a reflexão dentro da sua realidade;
5. Comunicar-se através de diferentes linguagens;
6. Utilizar-se das tecnologias da informação e comunicação como mais um meio de ensino e aprendizagem;
7. Ser capaz de respeitar a realidade cultural e social na escola em todas os seus aspectos para que possa atender à diversidade;
8.Investir continuamente na sua formação juntando conhecimento científicos, técnicos e culturais;
9.Considerar a afetividade no processo ensino e aprendizagem e
10. Contribuir com o desenvolvimento ético dos alunos e com a construção de valores para a boa convivência em sociedade.

Acredito que realmente seja necessário que o professor se adapte às novas realidades (e elas são muitas!!!), para que possa instituir práticas pedagógicas mais eficazes. Porém, julgo ser uma utopia, acreditar que se consiga, realmente, pôr em prática, todos os dias em sala de aula,  as atitudes mencionadas, levando em consideração os inúmeros problemas de natureza diversa (que escapam ao controle do professor) enfrentados na prática docente.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

LIBÂNEO, José Carlos.Tendências Pedagógicas na Prática Escolar

O texto apresenta as tendências pedagógicas que se têm firmado, conforme o autor, nas escolas pelas práticas dos professores, explicitando os pressupostos teóricos e metodológicos de cada uma delas.

A – Pedagogia liberal
 Baseada na sociedade de classes, a pedagogia liberal sustenta a idéia de que a escola tem por função preparar os indivíduos para o desempenho de papeis sociais, de acordo com as aptidões individuais.

  1. TRADICIONAL – O compromisso da escola é com a cultura. Os problemas sociais pertencem à sociedade. Desta forma, os conteúdos de ensino são os conhecimentos e valores sociais acumulados pelas gerações anteriores e repassados como verdades absolutas. Predomina a autoridade do professor que transmite o conteúdo como verdade.
  2. RENOVADA PROGRESSISTA – A finalidade da escola é adequar as necessidades individuais ao meio social. À escola cabe suprir as experiências que permitem ao aluno educar-se, num processo ativo de construção e reconstrução do objeto, numa interação entre as estruturas cognitivas do indivíduo e estruturas do ambiente. Dessa forma, os conteúdos de ensino são estabelecidos em função de experiências que o sujeito vivencia. “Aprender fazendo”.
  3. RENOVADA NÃO-DIRETIVA – Papel da escola como formadora de atitudes, razão pela qual deve estar mais preocupada com os problemas psicológicos do que com os pedagógicos e sociais. Clima de autodesenvolvimento e realização pessoal. O professor é um especialista em relações humanas, ausentando-se como forma de respeito e aceitação plena do aluno.
  4. TECNICISTA – À escola compete organizar o processo de aquisição de habilidades, atitudes e conhecimentos específicos, úteis e necessários para que os indivíduos se integrem na “máquina do sistema social global”. Produção de indivíduos competentes para o mercado de trabalho.

B – Pedagogia progressista
Baseada na análise crítica das realidades sociais, a pedagogia progressista sustenta implicitamente as finalidades sociopolíticas da educação.


  1. LIBERTÁRIA – A pedagogia libertária  espera que a escola exerça uma transformação na personalidade dos alunos num sentido libertário e autogestionário. Os conteúdos de ensino ficam à disposição dos alunos que trabalham em grupos na forma de autogestão. Dessa forma, esta pedagogia considera ineficazes e nocivos todos os métodos à base de obrigações e ameaças.
  2. CRÍTICO-SOCIAL DOS CONTEÚDOS – A função da pedagogia “dos conteúdos” é dar um passo a frente no papel transformador da escola, mas das condições existentes. A atuação da escola consiste na preparação do aluno para o mundo adulto e suas contradições, fornecendo-lhe um instrumental, por meio da aquisição de conteúdos e da socialização, para uma participação organizada e ativa na democratização da sociedade. “O professor deve obter o acesso do aluno aos conteúdos, ligando-os com a experiência concreta dele – a continuidade; mas, de outro lado, de proporcionar elementos de análise crítica que ajudem o aluno a ultrapassar a experiência, os estereótipos, as pressões difusas da ideologia dominante – é a ruptura.”
  3. LIBERTADORA - Criada por  Paulo Freire, esta é uma tendência pedagógica que deve defender a autogestão e o antiautoritarismo, fazendo do professor um mediador do conhecimento. Importante ressaltar também que essa tendência é muito empregada na educação de jovens e adultos, já que vincula a educação à luta e à organização das classes menos favorecidas e faz com que o trabalhador tome consciência da exploração política e econômica a que está submetido. Nesse sentido, Freire destaca a importância de se considerar a realidade do aluno no ambiente de aprendizagem. Afinal, aprender deve ser um ato  de conhecimento da realidade concreta, e só tem sentido se puder se aproximar crítica e ativamente dela.

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As ideias norteadoras da tendência libertadora são, de fato, instituidoras de um     pensamento que toma o ensino de conteúdos como social (formação de cidadãos do mundo). Dessa forma, é importante notar que a escola nem sempre consegue tomar os conteúdos de ensino (transmissão desses conteúdos) dessa maneira. Por ser muitas vezes um ambiente que artificializa as situações (e muita vezes não há como não ser assim) fica bastante complicado implementar uma tendência de tipo libertadora no ensino regular.